Quando a liberdade encontra o abandono, acolhimento vira chance de reconstrução

Após deixar a prisão com o filho nos braços, Beatriz encontrou acolhimento em projeto social e tenta reconstruir a vida longe das ruas e do cárcere


Por: Camilly Macedo, Flora Regassini, Kauane Gabriela, Marina Scofano (*)


 
(Foto: Flora Regassini)


Quando Beatriz deixou a penitenciária, há menos de um mês, não havia ninguém esperando por ela do lado de fora. Nenhum abraço, nenhuma mala pronta, nenhum lugar para ir. Ela saiu apenas com o filho nos braços e uma vida inteira marcada pela ausência.

Antes mesmo do cárcere, Beatriz já conhecia a dor. Viveu em situação de rua, enfrentou agressões, negligência, fome e abandono. Mãe de sete filhos, passou por inúmeras prisões ao longo da vida e carrega uma trajetória atravessada por vulnerabilidades que começaram muito antes das grades.

Foi dentro da prisão, ao precisar criar um bebê em meio à precariedade do sistema, que viveu algumas das experiências mais desumanas de sua vida, segundo ela mesma. "Minha última refeição às vezes era às quatro da tarde. Como é que amamenta um bebê assim?", questiona.

A maternidade, que já exige cuidado e estrutura em condições normais, dentro do cárcere se transforma em sobrevivência diária. Beatriz relata que ela e o filho passavam o dia todo sozinhos. "Era só eu e meu menino. O dia todo."

O acesso à saúde também era extremamente limitado. Consultas médicas aconteciam apenas em situações consideradas graves. Tanto sua saúde quanto a do bebê, segundo ela, permaneciam negligenciadas. Entre choros, noites mal dormidas e a falta do básico, Beatriz tentava proteger o filho da realidade ao redor. "Meu maior medo era que o menino sentisse fome, frio ou abandono."

O cárcere feminino, muitas vezes invisibilizado no debate público, revela histórias como a dela: mulheres que chegam ao sistema penitenciário já profundamente feridas pela exclusão social. A solidão afetiva é parte dessa realidade, diferente do que ocorre com homens presos, que geralmente mantêm vínculos com familiares durante o cumprimento da pena, muitas mulheres encarceradas são gradualmente abandonadas por suas redes de apoio.


A liberdade sem destino

Quando finalmente deixou a prisão, a realidade continuou dura. Beatriz não tinha casa, dinheiro, emprego ou rede de apoio. Não havia para quem telefonar. Não existia um endereço para recomeçar.

A situação de Beatriz não é exceção. Pesquisa realizada para este dossiê com moradores da região mostrou que 75% dos entrevistados acreditam que mulheres egressas do sistema prisional não conseguem se reinserir na sociedade com facilidade. Quando questionados sobre contratar uma ex-detenta, apenas 33,9% disseram que o fariam sem ressalvas — os demais condicionaram a resposta à situação ou recusaram. E 100% dos participantes afirmaram acreditar que há preconceito contra essas mulheres.

Foi nesse momento que o projeto Conselho da Comunidade entrou na vida de Beatriz. A entidade sem fins lucrativos atua diretamente na execução penal e na ressocialização de pessoas privadas de liberdade, vinculada ao Poder Judiciário (Juízo das Execuções Criminais), e faz a ponte entre a sociedade civil e o sistema carcerário nos presídios da região, incluindo Tremembé e Potim. Acolhida pela equipe do projeto, Beatriz encontrou algo que, segundo ela, nunca havia tido de verdade: cuidado.

Desde a saída da penitenciária, passou a receber auxílio completo dos conselheiros responsáveis pela iniciativa, um lugar para morar, alimentação, roupas, fraldas para o bebê e acompanhamento médico. Consultas odontológicas também foram organizadas para iniciar o processo de reconstrução do seu sorriso, algo que, para muitos, pode parecer simples, mas que, para Beatriz, simboliza dignidade.

Uma oportunidade que muda tudo

Entre tantas ajudas, uma possui um significado ainda maior: a possibilidade de trabalhar. Por meio de uma parceria com Patrícia Pereira, proprietária da empresa Casa Mage Presentes, Beatriz recebeu uma oportunidade de emprego… talvez a primeira chance concreta de reconstruir a própria vida longe das ruas, da violência e do cárcere.

Durante a entrevista, ela chorou diversas vezes ao falar sobre o que essa oportunidade representa. Mais do que um salário, o trabalho significa a possibilidade de voltar a existir socialmente. "Eu quero voltar a ser uma cidadã."

Beatriz sabe, porém, que sua realidade ainda é exceção. Muitas mulheres deixam a prisão sem qualquer apoio e acabam retornando aos mesmos contextos de vulnerabilidade. Segundo ela, quando não existe acolhimento, alternativas como prostituição, drogas e relações abusivas voltam a parecer os únicos caminhos possíveis, o que ajuda a explicar por que o ciclo de reincidência se mantém.

Os dados da pesquisa corroboram essa percepção: 62,5% dos entrevistados apontaram a vulnerabilidade social como principal causa do encarceramento feminino, e 85,7% acreditam que a violência doméstica pode estar no caminho que leva mulheres ao cárcere. Para quem sai da prisão sem rede de apoio, esses mesmos fatores de risco continuam presentes.

Ao final da entrevista, Beatriz deixou uma mensagem para as mulheres que continuam no cárcere ou que ainda enfrentarão a liberdade sem apoio: "Procurem ajuda de pessoas boas. Porque elas existem."

Hoje, ainda tentando reconstruir a própria vida, ela afirma que talvez esteja vivendo, pela primeira vez, algo próximo da esperança. E para alguém que saiu da prisão sem absolutamente nada, ser acolhida junto do filho pode significar muito mais do que recomeçar.

Pode significar, finalmente, pertencer.


(*) Sob supervisão e edição do Prof. Me. Caíque Toledo