Entre muros e recomeços: os desafios da ressocialização de mulheres no Brasil


Histórias de mulheres que passaram pelo sistema prisional revelam como a vulnerabilidade social começa antes da prisão e continua após a liberdade


Por: Camilly Macedo, Flora Regassini, Kauane Gabriela e Marina Scofano (*)



(Foto: Flora Regassini)


Quando se fala em mulheres dentro da prisão, parte do imaginário popular evoca crimes de grande repercussão, violência extrema ou figuras que estampam manchetes nacionais. Mas a realidade encontrada dentro dos presídios femininos do interior de São Paulo é outra: silenciosa, invisibilizada e profundamente marcada pela vulnerabilidade social.

Por trás das grades, histórias se repetem. Mulheres atravessadas pela pobreza, pelo abandono, pela violência doméstica, pela dependência emocional e por uma sucessão de negligências que começaram muito antes do cárcere. Muitas não chegaram ao crime por poder ou ambição, mas por necessidade, sobrevivência ou influência de relacionamentos com homens já envolvidos na criminalidade,realidade reconhecida por 89,3% dos entrevistados em pesquisa realizada pelo grupo para este dossiê.

Ao longo deste dossiê, a equipe visitou a Penitenciária Feminina II de Taubaté e ouviu relatos de mulheres que vivem o difícil processo de reconstruir a própria vida depois da prisão. Em comum, elas carregam marcas que o sistema penitenciário não criou, ele apenas aprofundou.

Beatriz está em liberdade há menos de um mês. Ao contar sua trajetória, ela revela uma realidade que desmonta discursos simplistas sobre criminalidade feminina. Antes mesmo da prisão, já vivia nas ruas, enfrentando abandono, fome e ausência de oportunidades. Para ela, o sofrimento não começou no cárcere.

A fala de Beatriz expõe um dos principais desafios quando se debate ressocialização: como reinserir socialmente alguém que, muitas vezes, nunca chegou a ser plenamente inserido?


O cárcere feminino e suas particularidades

Embora o sistema prisional brasileiro tenha sido historicamente pensado para homens, o número de mulheres encarceradas cresceu significativamente nas últimas décadas, de acordo com o Infopen Mulheres (2015). Ainda assim, as especificidades femininas seguem sendo tratadas como secundárias.

Dentro das unidades prisionais, questões relacionadas à saúde íntima, higiene, maternidade e saúde mental aparecem como reclamações frequentes de detentas e visitantes. Mulheres grávidas, mães de recém-nascidos e responsáveis pelo cuidado dos filhos enfrentam uma realidade ainda mais delicada.

Para muitas, a prisão não representa apenas a perda da liberdade, mas também a ruptura dos vínculos familiares. Diferente dos homens encarcerados, que geralmente recebem visitas constantes, muitas mulheres acabam abandonadas afetivamente. Há uma solidão específica no cárcere feminino.

A maternidade se transforma em sofrimento permanente. Algumas acompanham o crescimento dos filhos à distância; outras perdem completamente o contato com a família. Há ainda as que tentam criar seus bebês dentro de um sistema em que falta o básico até para elas mesmas. E quando a liberdade chega, os desafios não terminam.


Foto: Flora Regassini

Mulheres marcadas antes mesmo da prisão

Ao longo das entrevistas, um padrão se repetia: histórias atravessadas por negligência, violência e ausência de políticas públicas desde a infância. Abandono familiar, abuso, evasão escolar, maternidade precoce e situações constantes de vulnerabilidade apareciam com frequência nos relatos. Em diversos casos, o crime surgiu como consequência de uma trajetória já marcada pela exclusão.

Esse cenário se reflete na percepção social. Em pesquisa realizada com moradores da região para este dossiê, 62,5% dos entrevistados apontaram a vulnerabilidade social como principal fator que leva mulheres ao cárcere, enquanto 66,1% afirmaram que essas mulheres não tiveram acesso suficiente à educação, ao trabalho e ao apoio social antes da prisão. Outros 76,8% acreditam que a falta de escolaridade influencia diretamente o envolvimento com o crime.

Compreender esse contexto não significa romantizar ou justificar os delitos cometidos, mas reconhecer que a criminalidade feminina frequentemente nasce em contextos sociais complexos. A prisão, sozinha, não resolve essas estruturas.

Sem acesso à educação, moradia, saúde mental, assistência social e oportunidades reais de trabalho, a liberdade pode significar apenas o retorno ao mesmo cenário que levou muitas delas ao cárcere. Não à toa, 75% dos entrevistados na pesquisa afirmaram que mulheres egressas do sistema prisional não conseguem se reinserir na sociedade com facilidade.

Ressocializar é reconstruir dignidades

Discutir ressocialização feminina exige ir além dos muros das penitenciárias. A reintegração não depende apenas do indivíduo, mas também das oportunidades que a sociedade oferece e, nesse ponto, o estigma ainda pesa. Na mesma pesquisa, 100% dos entrevistados afirmaram acreditar que existe preconceito contra mulheres que já estiveram no sistema prisional. Quando questionados sobre contratar uma ex-detenta, 58,9% responderam que "depende da situação".

Para Beatriz, recomeçar envolve muito mais do que deixar a prisão. É tentar reconstruir a própria identidade depois de uma vida inteira marcada pela exclusão. "Trabalhar agora é poder voltar a ser uma cidadã", ela diz, "algo que eu não me sinto há anos."

Entre muros e recomeços, existem mulheres que carregam dores antigas, invisibilizadas muito antes das grades. E talvez o maior desafio da ressocialização seja justamente esse: enxergá-las para além do crime.


(*) Sob supervisão e edição do Prof. Me. Caíque Toledo