Projetos sociais e conscientização coletiva se tornam fundamentais no enfrentamento da insegurança alimentar em uma região que contrasta entre a abundância e o desperdício
Por: Giovana Borghezani, Loslayne Martins, Maju Margon e Yasmim Soufer (*)
(Foto: Giovana Borghezani)
O Brasil foi o terceiro maior exportador de produtos agropecuários do mundo em 2024, movimentando cerca de US$144,4 bilhões, segundo o Trade Map. Apesar disso, milhões de brasileiros ainda convivem com algum grau de insegurança alimentar.
No Vale do Paraíba, uma das regiões mais desenvolvidas do estado de São Paulo, a situação não é muito diferente. Em 2025, cerca de 65 mil famílias da região estavam inscritas no Cadastro Único (CadÚnico) em situação de vulnerabilidade social.
A questão da fome vai além da produção de alimentos. É um conjunto de processos que está relacionado a fatores estruturais, como desemprego, informalidade e concentração de renda, que dificultam o acesso regular à alimentação de qualidade.
A fome é uma consequência da desigualdade socioeconômica, um reflexo da precariedade enfrentada por milhões de lares brasileiros.
Diante desse cenário, surgem projetos comunitários, cozinhas solidárias, igrejas e organizações não governamentais, que passam a realizar ações essenciais no combate à fome.
Em Taubaté, um grupo de vicentinos, membros da Sociedade São Vicente de Paulo, em parceria com a Pastoral da Criança, que atua na Comunidade São João Evangelista, coordena um projeto de arrecadação e entrega de cestas básicas no bairro Chácara Flórida.
De acordo com os voluntários, a procura por assistência aumentou nos últimos anos, principalmente entre famílias afetadas pelo desemprego e pela informalidade.
“Hoje nós ajudamos mais ou menos 20 famílias. Algumas são mães solo, outras são casadas. Algumas trabalham, outras estão desempregadas”, afirma Terezinha Carvalho Prado Martins, uma das fundadoras da comunidade e das ações de caridade no bairro.
Além da distribuição de mantimentos, o projeto também monitora o crescimento das crianças, incentiva a matrícula e a frequência escolar e oferece acolhimento às famílias em situação de vulnerabilidade.
Jéssica Amorim Cardoso Baioco, uma das assistidas do projeto, diz que na metade do mês os mantimentos já começam a acabar em casa. “Aí, eu recorro às meninas. Eu sinto vergonha de procurar ajuda, mas quando a gente tem filho, tem que perder a vergonha e correr atrás”, relata.
Mais do que ajuda, esses espaços fortalecem a criação de redes de apoio e proporcionam um ombro amigo para quem busca conforto na fé.

Foto: Paolo Bona / Shutterstock.com
Em levantamento realizado para este dossiê, com 51 moradores de diferentes municípios do Vale do Paraíba, por meio de questionário online, 51% dos participantes atribuem ao governo o dever de combater a insegurança alimentar, enquanto 39,2% defendem uma responsabilidade compartilhada entre poder público, sociedade civil e projetos sociais.
Além disso, a maioria dos participantes opina que iniciativas comunitárias desempenham um papel relevante na ampliação da inclusão social, mesmo lidando com falta de recursos e apoio externo.
Segundo dados do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), divulgados em 2024, cerca de 30% dos alimentos produzidos no Brasil são desperdiçados.
Essa perda é constante ao longo do processo de produção e distribuição, culminando no consumo doméstico. Esse fator evidencia que a fome não resulta somente da escassez, mas também da má gestão da fartura.
O hábito de descarte torna-se um privilégio.
Nesse contexto, ações de conscientização sobre o desperdício alimentar e o aproveitamento integral dos alimentos vêm ganhando força em campanhas educativas e programas solidários.
No Vale do Paraíba, iniciativas como o programa Mesa Brasil, do Sesc, atuam simultaneamente no combate ao desperdício e à insegurança alimentar. Por meio da coleta de alimentos que não possuem valor comercial, mas mantêm qualidade para consumo, o programa redistribui os produtos para instituições que atendem pessoas em situação de vulnerabilidade social.
Em 2025, foram mais de 7 mil toneladas de produtos, desde alimentos até artigos de limpeza e higiene pessoal, distribuídos em todo o país.
Apesar dos desafios frequentes, ações comunitárias seguem transformando a solidariedade em assistência cotidiana. Embora não sejam capazes de resolver sozinhas um problema estrutural, essas iniciativas ajudam a garantir acesso à alimentação e reforçam a importância da participação coletiva no enfrentamento da insegurança alimentar.
Mais do que distribuição de mantimentos, o enfrentamento da fome é garantia de dignidade humana para quem precisa.
(*) Sob orientação do Prof. Me. Caíque Toledo de Camargo Campos
.png)