A fome é o resultado visível de processos históricos, sociais e econômicos que perpetuam o ciclo da pobreza conforme a conveniência do sistema
Por Giovana Borghezani, Loslayne Martins, Maju Margon e Yasmim Soufer (*)
(Foto: Giovana Borghezani)
O Brasil se destaca como um dos maiores produtores e exportadores de alimentos do mundo, ao mesmo tempo em que milhões de pessoas não têm o que comer .
A fome atinge, sobretudo, as famílias que se encontram em situação de vulnerabilidade social. Isso vai além da insuficiência de renda, que, entre outros aspectos, dificulta ou até mesmo impede o acesso ao item mais básico da dignidade humana.
Tratar da questão da insegurança alimentar e nutricional requer consciência de que o acesso à alimentação é um assunto coletivo e político.
A vulnerabilidade social é muito mais do que apenas a falta de dinheiro. É um estado de desproteção, quando até o básico fica inacessível. Nessas condições, um imprevisto se torna uma avalanche de problemas.
A pessoa que se encontra em vulnerabilidade social muitas vezes trabalha, lida com uma rotina agitada, tem filhos e sonha em viver bem, como qualquer outra pessoa.
Além das dificuldades financeiras, a exclusão social também aparece no desemprego, na escolaridade precária e na ausência de uma rede de apoio. A junção de todos esses fatores resulta em um ciclo interminável, cuja única preocupação é atender às demandas do sistema.
Há uma relação direta entre a vulnerabilidade social e a fome: o salário-mínimo não é proporcional ao aumento do custo de vida, nem condizente com muitas jornadas de trabalho exaustivas vivenciadas pelos milhões de brasileiros que lotam as linhas de transporte público todos os dias, antes das 6h da manhã.
Depois de pagar o aluguel, a água e a luz, a compra do mercado vira privilégio.
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Fome, pobreza e insegurança alimentar
Apesar de parecerem iguais, fome e insegurança alimentar não são sinônimos. Quando percebemos a diferença entre os conceitos, fica claro o que cada um significa, sendo possível perceber que o problema é muito maior do que imaginamos.
Fome é a sensação física que indica a necessidade de alimento para manter o corpo vivo e ativo.
Já a insegurança alimentar é um problema alimentar e nutricional mais amplo. Acontece quando a pessoa não tem garantia de ter comida de qualidade suficiente no dia a dia. Ela possui três níveis: leve, quando há preocupação se haverá comida; moderada, quando há escassez de comida ou alimento de pior qualidade; e grave, quando a fome de fato aparece.
A pobreza, no entanto, é uma condição socioeconômica mais ampla, que engloba a insuficiência de renda e a privação de bens e serviços básicos. Isso não é um reflexo da falta de esforço individual, mas de como a sociedade se organiza.
Uma pessoa pode ser afetada pela pobreza sem, necessariamente, estar em situação de insegurança alimentar.
(Foto: Yasmim Soufer)
O mundo e o Brasil em relação ao mapa da fome
No quadro mundial, a fome nunca deixou de ser um problema. A ONU (Organização das Nações Unidas) estabeleceu, no ano 2000, metas para erradicar a fome e a miséria, com os Objetivos de Desenvolvimento do Milênio e os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável.
Apesar dos avanços observados, fatores como crises econômicas, mudanças climáticas e a pandemia da Covid-19 fizeram com que a meta de resolver o problema da fome até 2030, estabelecida pelos ODS, se tornasse um sonho remoto.
A primeira vez que o Brasil saiu do Mapa da Fome da FAO (sigla para Food and Agriculture Organization, órgão da ONU) foi em 2014, após anos de políticas públicas voltadas ao combate à pobreza extrema. No entanto, uma série de cenários que envolvem mudanças na condução de programas sociais, a pandemia e dados econômicos como alta na taxa de desemprego ou no preço dos alimentos ocasionaram o retorno do país ao agravamento da insegurança alimentar no início dos anos 2020.
O cenário só foi alterado quando o governo federal anunciou, em 2025, que o triênio entre 2022, 2023 e 2024 registrou dados que colocaram o país abaixo do patamar de 2,5% da população em risco de subnutrição ou de falta de acesso à alimentação suficiente.
Peso da desigualdade
Não falta comida, mas falta acesso. O Brasil é um país de contrastes e realidades discrepantes. Enquanto muitos têm pouco, poucos têm demais.
Em um país que produz mais que o suficiente, o acesso ao básico ainda é negado a milhões de pessoas. A má distribuição de renda, a precariedade das condições de trabalho e as defasagens em políticas públicas trazem à tona um panorama incessante: o sistema sempre mantém o de cima subindo e o mais baixo descendo.
Enfrentar a fome é, antes de mais nada, uma questão de justiça social e humanidade.
É garantir o básico a quem precisa, independentemente de ganho pessoal, e transformar uma realidade onde deveria caber conforto, mas cabe apenas sobrevivência.
(*) Sob orientação do Prof. Me. Caíque Toledo de Camargo Campos