A vulnerabilidade social provoca efeitos físicos e psicológicos, enquanto comunidades religiosas se tornam espaços de acolhimento e esperança
Por: Giovana Borghezani, Loslayne Martins, Maju Margon e Yasmim Soufer (*)
(Foto: Giovana Borghezani)
No Brasil, cerca de 60 milhões de pessoas vivem com algum grau de insegurança alimentar, de acordo com dados do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística).
Mesmo em regiões consideradas economicamente desenvolvidas, como o Vale do Paraíba, a fome ainda faz parte da realidade de milhares de famílias. Em 2025, segundo dados do Cadastro Único (CadÚnico) do Governo Federal, cerca de 65 mil delas viviam sob a incerteza da próxima refeição.
Assim como a vulnerabilidade social vai além da pobreza, a fome também não se limita ao estômago vazio. Em muitos casos, ela está associada ao medo constante, à sensação de desamparo e à solidão.
Embora distantes das estatísticas e dos números divulgados em pesquisas, os efeitos da instabilidade alimentar acabam aparecendo silenciosamente na rotina de quem convive com ela. Entre mudanças físicas, desgaste emocional e a busca por formas de enfrentar a situação, a fome passa a impactar diferentes áreas da vida cotidiana.
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Os efeitos que vão além da alimentação
O sinal mais visível da insegurança alimentar é, talvez, a aparência.
Em sua dimensão física, ela aparece nos pequenos detalhes, que se intensificam gradualmente conforme as circunstâncias. O que começa com peso irregular, queda de cabelo e alterações na pele pode evoluir para aumento da pressão arterial e risco de doenças crônicas.
O desenvolvimento desses sintomas não decorre apenas da falta de alimentos, mas também da dificuldade de acesso a opções com qualidade nutricional.
Nesse cenário, a questão vai além do poder aquisitivo. Rotinas corridas e a praticidade dos alimentos industrializados também influenciam os hábitos alimentares. Muitas vezes, é mais prático e acessível comprar um ultraprocessado.
Como consequência, a alimentação inadequada e a privação frequente de nutrientes podem comprometer o organismo e impactar diretamente a saúde mental.
Uma revisão de estudos, publicada na Revista Eletrônica Acervo Científico em 2026, identificou associação consistente entre insegurança alimentar e sintomas de ansiedade, depressão, sofrimento psíquico crônico e alterações emocionais.
Segundo os autores, a falta de acesso regular aos alimentos não representa apenas uma privação material, mas uma experiência marcada pela incerteza, pelo medo e pela sensação constante de vulnerabilidade.
“Entre os adultos, os efeitos mais comuns estão relacionados ao estresse crônico, à ansiedade e à sensação de vulnerabilidade ou impotência. Muitos pais e responsáveis sentem-se culpados por não conseguir garantir a alimentação da família”, aponta a psicóloga Amanda Aquino.
Os impactos dessa realidade ultrapassam as questões nutricionais e passam a interferir diretamente no cotidiano. Noites mal dormidas, dificuldade de concentração e sensação constante de preocupação tornam-se parte da rotina de milhares de lares brasileiros, afetando não apenas o bem-estar físico, mas também a estabilidade emocional.
A incerteza sobre conseguir colocar comida na mesa, somada às dificuldades financeiras, contribui para o agravamento do sofrimento psicológico e compromete a qualidade de vida de pessoas que convivem diariamente com a vulnerabilidade social.
(Foto: Yasmim Soufer)
Nesse contexto de instabilidade, comunidades religiosas acabam se tornando espaços de acolhimento para muitas famílias. Além da distribuição de alimentos, igrejas e projetos sociais ligados à fé oferecem escuta, suporte emocional e convivência comunitária para pessoas em situação de vulnerabilidade.
No bairro Chácara Flórida, em Taubaté, iniciativas voluntárias ligadas à Pastoral da Criança fazem parte da rotina de famílias que enfrentam dificuldades financeiras e insegurança alimentar. “Aqui no bairro tem muitos casais que não têm um serviço fixo ou, às vezes, estão desempregados e precisam de ajuda. Alguns têm filhos pequenos, e a gente faz o possível para ajudar”, relata Jerry Francisco de Jesus, voluntário do projeto.
Para muitas famílias, esses espaços representam mais do que assistência material. Em meio às dificuldades provocadas pela fome, o acolhimento comunitário ajuda a reduzir o isolamento social, fortalecer vínculos e amenizar os impactos emocionais causados pela insegurança alimentar.
Enquanto milhões de brasileiros ainda convivem com a incerteza da próxima refeição, iniciativas comunitárias e redes de solidariedade continuam funcionando como pontos de apoio para quem enfrenta diariamente os efeitos físicos e psicológicos da fome.
(*) Sob orientação do Prof. Me. Caíque Toledo de Camargo Campos