Após ataque que deixou dois mortos e oito feridos, comunidade assentada lida com luto, medo e o desafio de seguir cultivando em paz
Por Gabriel Salles (*)
Na área rural de Tremembé-SP, o que parecia o encerramento de mais um dia comum se tornou palco de um grave episódio de violência. Um ataque ao assentamento Olga Benário, ocorrido na noite de 10 de janeiro de 2025, resultou em oito pessoas feridas e duas mortes: Valdir do Nascimento de Jesus, conhecido como Valdirzão, de 52 anos, e Gleison Barbosa de Carvalho, de 28 anos. O caso somou-se a outras ocorrências de violência envolvendo famílias assentadas no Brasil.
O episódio aconteceu no próprio assentamento, onde moradores desenvolvem atividades agrícolas voltadas à produção familiar. O local era coordenado por Valdirzão, figura reconhecida por sua atuação em prol da reforma agrária na região. Após o crime, seu irmão, Valdemir do Nascimento de Jesus, assumiu a coordenação do assentamento. Em entrevistas, ele associou o ataque à desinformação pública sobre a realidade dos assentamentos e a possíveis disputas territoriais.
Segundo Valdemir, quando movimentos sociais buscam garantir o cumprimento da função social da terra, prevista na Constituição Federal, frequentemente enfrentam resistências. O caso reforça a necessidade de discutir com mais profundidade a segurança no campo e os direitos das famílias assentadas.
Durante a investigação conduzida pela Polícia Civil, dois suspeitos foram identificados: Ítalo Rodrigues da Silva e seu pai, Antônio Martins dos Santos Filho, conhecido localmente como Nero do Piseiro. Conforme informações divulgadas, Nero foi detido no dia seguinte ao ataque, enquanto seu filho permanece foragido.
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Na época dos fatos, o delegado de Tremembé, Marcos Ricardo Parra, declarou ao portal Brasil de Fato que a motivação do crime estaria relacionada a desentendimentos internos quanto à negociação de lotes dentro do assentamento, sem vínculo direto com disputas por terra ou ações de reintegração.
“Foi uma cobrança de posição em relação à permissão de negociar o terreno ou não. A gente não conseguiu, até agora, entender se ele (Nero) era o adquirente ou se ele era o intermediário. Seja como for, ele estava lá para modificar o pensamento dos demais”, afirmou o delegado.
Em setembro de 2025, a Polícia Militar prendeu um homem suspeito de estar envolvido no ataque ao assentamento. Segundo o governo estadual, o suspeito foi detido durante um patrulhamento na Avenida Deputado Benedito Matarazzo, no bairro Vila Industrial, em São José dos Campos.
O caso segue sob investigação, com novas diligências previstas para esclarecer responsabilidades e motivações. O episódio chama atenção para os desafios enfrentados por comunidades assentadas no Brasil e reforça a necessidade de ações voltadas à promoção da segurança, da mediação de conflitos e da valorização da vida no campo.
Foto: Reprodução/TV Vanguarda
*Sob supervisão e edição do Prof. Me. Caíque Toledo