Não estou me referindo a Pelé, tampouco é um texto clichê sobre a seleção Brasileira, trata-se de um herói anônimo do sagrado mundo do futebol.
A tradicional placa afixada no ipê do canteiro principal na praça Dr. Oswaldo Cruz, em São Luiz do Paraitinga, anunciava durante a semana o grande o grande confronto futebolístico de domingo à tarde: Canário X São Caetano, um jogo de vida ou morte no antigo campo da ponte.
por Rosana Casferre
Não estava em disputa apenas o passaporte para o título de campeão Luisense de 1974, mas o tabu que perdurava por mais de 25 anos em que o Canário não vencia a forte equipe do São Caetano. O Rei Canário – apelido dado ao dono do time - Anésio Rodrigues sempre apresentava estrelas de outras localidades (enxertos) para dar certo clima a sua equipe. Os jogadores ficavam concentrados na velha casa do Rei, na esquina do jardinzinho, em frente ao cinema. A grande atração era a miniatura de um avião amarelo pendurado na sala com o escrete canarinho que conquistou o bicampeonato mundial de 1962. A torcida, em polvorosa, dividia a cidade. Fogos, agitação e uma grande movimentação entre a praça e o campo da ponte. É chegada a hora. Os jogadores do Canário saíram perfilados da casa do rei, ovacionados pela massa e embalados, como de costume, pela banda municipal que acompanhava os jogadores até o “campo da batalha”.
Em campo, antes do início do jogo, durante o aquecimento de goleiro, o Rei canário estava com a enxada nas mãos, dando os últimos retoques no gramado, aliás durante toda a vida essa foi a sua paixão e seu prazer: cuidar de cada detalhe do seu amado time. Foi jogador, treinador, roupeiro, gandula, massagista e torcedor fanático, claro! Como narraria Fiori Giliotti, "abrem se as cortinas e começa o espetáculo". Jogo de decisão todo mundo sabe é tenso, pegado, não ia para lugar nenhum. O forte ataque do São Caetano força o goleiro Raul a grandes defesas. Até que a bola sobra no campo de ataque do Canário e dentro da área e o centroavante faz a alegria da galera: 1 a 0 Canário. A resposta veio em seguida, o São Caetano empata. Mas antes do primeiro tempo, novamente o camisa 9 do canário abre um rombo na defesa adversária e põe a bola dentro do gol. O juiz apita o final do primeiro tempo. É só festa para a torcida do Canário. O tabuleiro de manjar e a cesta de pastel já tinha voado pelos ares, num gesto típico do Rei. Recomeça a partida e lá está ele, solitário, sentado no alto do morro da Dona Fanny se apegando às suas orações e só quem conhece o rei sabe que não são fracas, não!
E para o desespero da torcida canarinho, o São Caetano chega ao empate. O jogo prossegue com grande pressão das duas equipes, mas a tarde era mesmo do centroavante camisa 9 do Rei Canário, uma bola cruzada da direita e gol. Estava decretada a vitória do canarinho: 3 a 2. Grande resultado. A esta altura era só festa, rojão e cestas de pastel cruzando os céus da ponte. A criançada em delírio atrás do Rei Canário. Findada a partida, torcedores e jogadores seguiam para o tradicional terceiro tempo, realizados na casa do canário, se é que podemos assim tratá-la, que virou santuário do futebol luisense.
Essa não é uma história sobre Pelé, ou sobre a Seleção Brasileira, mas sobre um Rei que mesmo após o apagar das luzes da vida , permanece em espírito na memória e no coração de cada torcedor nos setenta e dois anos de história do Esporte Clube Canário. E a cada apito inicial o legado do Rei se faz presente e é possível sentir sua presença na eternidade dos 90 minutos.
