Academia de luta possui mais de cinco projetos voluntários em regiões carentes na cidade de Caçapava-SP
Em meio a crise em que o país se encontra nos dias de hoje, o professor de artes marciais consegue prosperar seu negócio que iniciou em uma garagem e hoje é referência quando o assunto é combate. Atualmente, é formado em taekwondo, hapkido, muay thai entre outras categorias. O instrutor auxilia outras pessoas, dispondo tempo e dedicação.
Por: Lucas Azevedo
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| A arte marcial tem o objetivo o alto desenvolvimento de seus praticantes (Arquivo Pessoal) |
Todos os dias a mesma rotina. Acordamos, tomamos café e vamos à luta. Muitas das vezes ouvimos este termo entre nós. Para algumas pessoas elas estão na ‘luta’, para outras, elas vivem dela. Como é o caso do Professor de Artes Marciais José Costa Aguiar Neto, mais conhecido como Mestre Aguiar. Nasceu em Caçapava, interior de São Paulo, na região do Vale do Paraíba em 1976. Filho de um policial militar, que sempre achou que para ser homem precisava saber aguentar algumas pancadas. Sendo assim, desde os 4 anos de idade, José começou a praticar judô. Apesar de gostar de lutar, ele ainda praticava futebol como milhares de crianças espalhadas pelo Brasil. Após alguns anos lutando, seu primeiro combate não foi com o tatame e sim com a realidade da vida. Seu pai abandonou a família e por diversas vezes passaram fome e outras necessidades. Aos 10 anos já trabalhava fora para buscar seu próprio sustento, por este motivo teve que parar com as artes marciais. Já foi servente, office-boy, segurança e vendedor ambulante.
Os anos se passaram e Aguiar ainda trabalhou em empresas como Nestlé e Mafersa, porém paralelo com a luta, que foi sempre sua paixão. José ressalta que a ela o ajudou a controlar suas emoções. “Esse extinto de luta e sobrevivência do ser humano é muito genético, meu pai lutava e tinha um problema com temperamento, sempre foi muito brigão. A arte marcial me ajudou a controlar a ira. Desde então, comecei a competir e transferir o sentimento para o ringue”, disse. Aguiar apurava suas habilidades em diversas modalidades, entretanto, aos 25 anos, quase um nocaute: hérnias de disco, abaulamento de outros discos vertebrais e deslocamento da vértebra da coluna, quase o colocaram em uma cadeira de rodas. Os médicos alertaram que o excesso de atividade física foi a causa das lesões e que provavelmente, nunca mais poderia competir. Para não ficar longe do tatame o resto da vida, decidiu dar aulas como professor na academia onde treinava.
Em 2000, após ser demitido de seu último emprego formal, decidiu abrir sua própria sede no bairro Vila São Geraldo, na garagem de sua mãe, a Academia Aguiar Fight Team (AFT). “O início foi muito difícil, gastei todo dinheiro do meu seguro desemprego e fiz empréstimos sem saber se eu teria dinheiro para pagar. O que me salvou foi que, quando eu abri já tinha 30 alunos e cobrava basicamente o valor das prestações do empréstimo, ou seja, não obtinha nenhum lucro”, alega. Nesse meio tempo ele conheceu uma companheira de luta, a qual seria sua futura esposa, Joelma Aguiar. “ A Joelma entrou de cabeça no negócio, sempre me apoiou e acreditava que iria dar certo, ela era apaixonada pela mesma coisa que eu. Nós fazíamos por amor, virar negócio foi consequência. O mais difícil era manter a academia funcionando e pagar as taxas da federação. Por ser uma academia de fundo de garagem o pessoal não dava muito valor, eu não tinha nenhum marketing, só ia treinar comigo quem já me conhecia”, destaca.
Em 2010, conciliava a vida de casado com a academia e pagava os empréstimos que havia feito. Mas seu negócio prosperou de modo inimaginável, por meio de um convite de um amigo, Aguiar foi prestigiar uma luta e um show cristão do Rapper Pregador Luo, na Igreja da Cidade em São José dos Campos (antiga PIB). Até então, só aceitou o convite com o interesse nas lutas, afinal, nunca se envolveu com igreja, mas naquela mesma semana, um homem que ele nunca tinha visto na vida o abordou e disse “Prepara seu passaporte, porque você vai para outro país”, e após alguns dias, recebeu um convite da federação com o destino à Coreia do Sul para participar de uma graduação no Taekwondo. De 60 alunos a academia triplicou seu número, tanto que Aguiar precisou mudar para um novo local no centro de Caçapava. Foram criadas turmas para atender todos os tipos de públicos, desde crianças até idosos. Em 2016 mudou-se novamente para um espaço ainda maior. Após 16 anos de batalha, hoje José Costa além de ter seu próprio negócio, também proporciona emprego para as pessoas que estão com ele desde o início de sua trajetória.
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| Com o passar dos anos, os alunos também se tornaram professores (Arquivo Pessoal) |
Apesar de ter seu empreendimento em meio à crise em que o país vive, Aguiar sabe que muitas pessoas não possuem condições financeiras para arcar com a mensalidade da academia, e por isso, possui cinco projetos voluntários em bairros carentes de Caçapava. “Mesmo com dificuldades procurei dar aulas de graça, sempre quis proporcionar aquilo que eu não tive. Já precisei parar de treinar porque não tinha dinheiro para pagar. Hoje meus alunos trabalham nesses projetos”, disse. Aguiar ainda destaca a importância de se doar para o próximo sem esperar nada em troca. “É melhor dar do que receber, é bom doar um pouco de nós para as pessoas. Você tendo algo e poder compartilhar não tem preço. Hoje em Caçapava, se tem algum projeto de Arte Marcial, esse aluno saiu daqui, Deus provém, sou desconectado do material”.
A academia AFT também possui um projeto voluntário em seu próprio estabelecimento e na Igreja da Cidade em Caçapava, porém o objetivo central não é formar lutadores e sim cidadãos de caráter e do bem. Hoje Aguiar é faixa preta em várias modalidades. Possui o quinto dan na categoria do Taekwondo, e é um dos mais jovens brasileiros a conseguir esse feito. Pai de João Guilherme e Josué, ele é influenciador por onde passa. Estes e outros feitos o fazem ser chamado de Mestre.


