A vida por entre as teclas de um piano

É no meio de grandes compositores da Música Clássica, até compositores da MPB, como Tom Jobim e Vinicius de Morais, que Maria das Dores da Silva, conhecida como Dora, vive há cinco décadas.


Por Gabriel Castro


Residente em Pindamonhangaba, interior de São Paulo, Dora diz que viveu e vive até hoje em função da música. “A música é tudo pra mim! Eu não só amo a música como eu a vivo. O que eu sou hoje, eu devo a Deus em primeiro lugar, e a música.” Dora começou a estudar música ainda criança, na igreja em que freqüentava com a família.
Dividia seu tempo entre os estudos normais e a música, sempre com a mãe incentivando e exigindo que ela estudasse. “Minha mãe me disciplinava, me ajudava... Foi o ponto principal para que eu persistisse. Até voltar a estudar música ela voltou, para me motivar e me acompanhar”, relembra, seus olhos emocionados. “Até mesmo porque, não tinha como eu ser a única pessoa em uma família de músicos a não tocar nada, né?”, completou, deixando escapar algumas risadas.
Após anos de estudo e dedicação na igreja e com professores particulares, a artista foi convidada a estudar na antiga Faculdade de Música (FAMUSC) da cidade. A essa altura, o que era apenas canto se transformou em piano, flauta doce, violão e teclado. “Foi aí que, encorajada pela Irmã Cecília, fui indicada para entrar para o Conservatório Fêgo Camargo, em Taubaté-SP”, conta. Dora prestou a prova e foi aprovada, eliminando dois anos de musicalização, “graças a Deus que consegui eliminar esses dois anos”, comenta a professora, com ótimo humor.
Ministrando aula para sua aluna Maurinea Literio Caceres, de 64 anos, nota-se a paciência, a admiração, a atenção pela qual a professora acompanha os acordes, que transformam as várias notas em uma bela música. “Pela Luz dos Olhos Teus, de Vinicius de Morais. Acho que não é do seu tempo, não é?”, brincou a aluna ao olhar para mim. “Vinicius, um grande poeta”, respondeu Dora deixando escapar um suspiro, contente em ver o progresso da aluna.
Dora acredita que a música é uma terapia e pode curar. Já deu aula para crianças, adultos, pessoas vítimas de depressão, Síndrome de Down e até pessoas com problema de surdez, pessoas com mais de 60 anos, e relembrando de cada aluno a professora, com um sorriso pleno em seu rosto, conta as histórias e relembra os momentos de felicidade.

O Sol se põe e Dora se dirige ao piano, onde toca uma música clássica, sem olhar nas partituras. Seus dedos movendo-se rapdamente e montando acordes nas teclas de marfim amareladas do piano. Sua expressão de prazer e realização é visível. “Não vivo sem a música, música toca o interior de cada um, toca a alma”, declara a professora, abaixando a tampa do piano satisfeita, com mais um dia de dedicação a música; à vida.