“Tudo começou com a pichação
Em que ele encontrou
Uma forma de comunicação.
Arte, desenvolvimento,
Liberdade de expressão.
Foi o individual urbano
Ampliando a visão de um ser humano
Que vem se envolvendo com a comunidade
E usando algumas rimas
Para mudar essa complicada sociedade.”
Esse é Luiz Fernando da Costa Ribeiro, 24 anos, natural de Guaratinguetá, mais conhecido como ENIDE MC, um rapper que dissemina a cultura do street art através das suas rimas pelas cidades do Vale. Quando pequeno, já se sentia muito atraído pelos escritos e desenhos que via nos muros. Em 1998 ele teve seu primeiro contato com o grafitti, depois o som alto do vizinho o introduziu ao RAP. Em 200 veio a onda do skate e, finalmente, em 2003, ele subiu ao palco pela primeira vez e de lá não desceu até hoje.
Para quem lê uma prosa curta resumindo o percurso do Enide, pode pensar que foi um caminho tranquilo, que tudo aconteceu naturalmente. Porém, ele conta que os obstáculos foram muitos e diversos, envolvendo desde a questão financeira, até o preconceito. “As dificuldades sempre são os recursos tecnológicos e no começo o preconceito também era maior, então isso dificultou bastante a correria na música”, ressalta Luiz Fernando.
Contudo, vencer essas batalhas deu ao Enide resistência e motivação para perseverar numa produção artística em que ele acredita ser libertária. Com incentivo de familiares, amigos e parceiros de palco, Luiz Fernando continua desenvolvendo um trabalho musical engajado, recheado de ideologia. “Eles são minhas influências, pois me incentivam a não deixar a fonte secar e contribuir para que o relato dos fatos e a expressão de rua não se esgotem”.
É essa produção individual e construção de uma crítica coletiva que embasam a arte urbana, também chamada de street art. Lilian Pará, professora de artes plásticas do Colégio Albert Einstein e da rede municipal de ensino de Guaratinguetá, define essa expressão artística como qualquer manifestação realizada em espaço público. “Desde performances, como escultura viva, até o conhecido grafitti, essas manifestações são, normalmente, realizadas pela iniciativa de artistas independentes, a fim de atrair o olhar do público que transita pelas ruas”.
Por possibilitar uma maior liberdade na expressão de sentimentos e ideias, destaca Lilian, essa arte atrai, principalmente, os jovens que, além de curtirem as rimas do hip hop, aprendem a diferenciar um ato transgressor de uma criação engajada. “O grafitti atrai o interesse dos jovens com quem trabalho, pois eles veem, nesse tipo de arte, a possibilidade de se manifestar com liberdade. Diferente da pichação, que é claramente esclarecido para eles como um ato de transgressão”, ressalta Lilian.
O ato de grafittar não é apenas sair desenhando e pintando paredes pelas ruas da cidade, ele depende de projeto e incentivo, principalmente para contextualizar aquela intervenção na paisagem urbana. Lilian conta que há algum tempo a Prefeitura Municipal de Guaratinguetá criou oficinas de “Cultura do Hip Hop”, com o propósito de integrar todas as diversas expressões do street art, como música, dança e artes plásticas.
Guaratinguetá, os alunos do no 9º ano precisam desenvolver um trabalho de conclusão do curso de artes em que podem escolher entre grafitti e intervenção nas salas da instituição. E são essas pequenas ações, principalmente relacionadas à educação, que iniciam um processo de mudança de paradigmas, em que a percepção dessa arte tende a ficar mais sensível e reflexiva.
Isso pode levar um tempo para se consolidar, mas o importante é continuar produzindo, lembrando-se sempre da mensagem do Enide MC: “No mais, a gente resolve com fé e determinação!”
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