‘Off’ na rede e ‘On’ na vida

Juliana Verri 

Com o crescimento da tecnologia e da informatização, a vida social vem sido deixada de lado por pessoas cada vez mais conectadas Quando o físico-programador inglês Tim Berners-Lee inventou aquilo que seria a internet, jamais imaginaria que seus conjugados de bits, bytes e códigos binários, seriam os responsáveis pelo maior sistema de informação, pesquisa, curiosidade e relacionamento já existente. Mais de duas décadas depois, circula no Facebook, a maior rede social do mundo, que conta com mais de 700 milhões de usuários registrados, uma ilustração que chama a atenção e envolve questionamentos. Nela, um casal, cada qual em seu computador, “produz” um bebê que nasce através da impressora. O título da ilustração é mais intrigante ainda: “Como os filhos serão feitos no futuro”. Frases, imagens e textos que circulam na rede mostram a mudança dos relacionamentos gerada pela internet.  As formas de comunicação não são todas iguais. No livro Decifrar Pessoas, Dimitrius e Mazzela informam que estar em contato direto com a pessoa pode informar uma gama de coisas através de suas reações que não são perceptíveis estando longe. A dúvida de que a tecnologia não afasta as pessoas finalmente teria uma resposta, afinal, ela apenas limita o contato. “Claro que a internet afasta as pessoas, olha só. Os jovens de hoje não saem nas tardes de domingo, ficam horas teclando. No meu tempo, domingo era dia de diversão”, enfatiza a dona de casa Margareth Ribeiro, 45. “Não que seja de um mal completo. Quem está longe fica realmente perto, mas quem está perto acaba ficando longe”, ressalta. “Tudo tem seu lado positivo e negativo”, avalia o mestre em educação, formado em filosofia, César Augusto Eugênio. “O homem se humaniza através da relação”. Na Revolução Industrial, marcada entre 1860 e 1900, os hábitos humanos começaram a sofrer modificações. Com a indústria se modernizando, e as pessoas tendo que adaptar-se em fazer tudo em tempo recorde, percebeu-se o inicio do afastamento pessoal. O avanço tecnológico permite um acesso nunca imaginado à informação, a lugares. Entretanto, o preço que se paga é alto demais. As conversas cara a cara passaram a ser relativamente raras. Fóruns na internet - a tal – discutem esse fato. No Google, por exemplo, há mais de 20 páginas – até onde se pôde apurar – que tratam do tema. E nenhuma apresenta uma proposta condizente e que reflita a realidade. “A tecnologia é ambígua, pois é um conjunto de conhecimentos utilizados para manter a vida e mudar o meio ambiente. Ela, de forma alguma, afasta as pessoas. O problema está em como usamos essa tecnologia”, completa o professor.

As crianças são as que mais podem ter futuros problemas relacionados ao convívio virtual
Uma pesquisa publicada pelo “Pew Internet and American Life Project” e apresentada pelo site www.tecmundo.com.br, revelou que, ao contrário do que se pensa, as novas tecnologias não afastam as pessoas do contato social direto com os outros. A pesquisa foi realizada nos Estados Unidos, via telefone, com 2512 adultos com idade superior a 18 anos. Segundo ela, quem usa celulares possui uma rede de discussão 12% maior do que quem não os usa. Quem compartilha fotos online e troca mensagens de texto via celular tem um acréscimo de 9% - cada uma das duas - em sua rede de discussão. Em outro aspecto, a variedade de pessoas nos grupos de quem usa celular é 25% maior, seguido por 15% para os usuários de internet, ou seja, quem utiliza essas tecnologias tem uma chance maior de conhecer pessoas com gostos diferentes. Além dos números, a pesquisa apontou que mesmo podendo ter contato com o mundo, as pessoas preferem contato com as próximas, assim a chance de encontrá-las na vida real é maior. Em contrapartida, a possibilidade de adicionar desconhecidos à sua lista de amigos ganhou proporção social – quanto mais amigos, mais popular. "É engraçado o que é ser um jovem engajado hoje. Criticar o que de errado acontece no mundo pelo Twitter ou pelo Facebook? Acreditam que colocando sua indignação na rede serão revolucionários, e que contribuirão com a mudança de algo que acontece fora da internet - no mundo real - sem se mexer”, aponta Gabriela Sakuno, jovem de 23 anos, estudante de arquitetura, que cresceu sob os olhos da internet. “É para minha proteção? Há o medo de compartilhar as frustrações e deixar os outros perceberem a minha fragilidade? Na rede, sou quem não consigo ser na vida real. Através do telefone posso parecer feliz quando estou cheio de tristezas”, explica César que afirma ainda que, a distância é relativa. “Pode num ônibus lotado estar só, enquanto em frente ao computador, estar na companhia de vários”, conclui ele. Para a “American Sociological Association”, a tecnologia leva, sim, ao isolamento social. Tanto esse fato é comentado na web, que o vídeo Disconnect to Connect (Desconectar para Conectar) começa a ganhar proporção. Ele convida a uma reflexão de como essa tecnologia pode sim afastar pessoas, mostrando diversos fatos em que as pessoas são invisíveis pelo contato com o celular e com a rede. Uma idéia do rabino Zacarias Wallerstein convidou a desligar o celular por alguns momentos - no dia 02 de outubro de 2011 - ou quem conseguisse, desconectar-se o dia todo e passar o tempo frente a pessoas reais. A capacidade de sentir, perceber, é pouco estimulada na sociedade. “Me preocupo em quantos ‘curtis’ vou receber, mas não quantos sorrisos ou se há alguém ali do meu lado para segurar minha mão”, ressalta Carlos Luiz Peres, orientador de artes cênicas do SESI São José dos Campos. “Falta sensibilidade entre as pessoas”, conclui. 

Acompanhe o vídeo Conect to Disconect. Uma iniciativa Tailandesa para aproximar as pessoas