Locadoras de filmes lutam para sobreviver


Com menos clientes, as locadoras batalham para se manter num mercado dominado pela pirataria e downloads ilegais

Por Fernando Vital



A empresária Angela Visoto mantém uma videolocadora há 23 anos. Durante todo esse tempo, ela conquistou muitos clientes e perdeu muito mais. Cerca de 80% deles, segundo a empresária, que sabe bem o motivo da queda tão grande nesse número. “Pirataria, downloads de internet”, destaca. É perceptível que o hábito de ir até a locadora faz cada vez menos parte do dia-a-dia das pessoas. Há tantas outras opções mais fáceis, práticas e baratas, que, para muita gente, ter que se deslocar para escolher um filme, pagar por isso, e ter uma data certa para devolvê-lo parece desnecessário.

O blogueiro João Neto pensa exatamente o contrário. “Alugo filmes porque o mercado televisivo não dispõe de uma variedade de títulos que possam vir a me agradar. Isso serve tanto para os canais abertos os fechados”. Seu argumento vai de encontro a uma das justificativas de Angela para continuar insistindo neste segmento. “As pessoas copiam muitos filmes que a mídia está falando, mas, às vezes, quer um filme com conteúdo diferente, alguma raridade, e isso não se acha por aí”.

Um dos motivos mais comuns para quem compra filmes piratas ou faz download pela internet é a demora na estréia de alguns títulos no Brasil, em relação à data de lançamento no seu país de origem. Apesar do esforço de alguns estúdios para promover estréias mundiais simultâneas, muitos filmes demoram muito para chegar aqui. Um estudo feito pelos economistas Brett Danaher, da Weslley College, e Joel Waldfogel, da Universidade de Minnesota, nos EUA, comprovou este fato. O estudo apontou, dentre outras estatísticas, que um filme que estréia na Austrália oito semanas depois de sua estréia nos Estados Unidos tem um retorno de bilheteria 40% menor.

Se nas salas de cinema, que contam com tecnologia de ponta, um ambiente preparado especialmente para a atividade de assistir filmes e exclusividade nos maiores lançamentos cinematográficos, já existe essa dificuldade em atrair clientes, o que pensar das locadoras? “Eu acho que as locadoras não têm muito futuro não”, avalia Rodrigo Schuster, que é diretor de arte e assume que deixou de freqüentar locadoras para comprar filmes piratas ou baixá-los pela internet. “Eu alugava muito filme, gastava quase todo o meu dinheiro alugando”. O motivo para essa mudança de hábito foi justamente o bolso. Muitas pessoas não vêem necessidade em pagar por aquilo que se pode ter em casa, sem custos, e com muito mais facilidade.

Essa discussão pode tomar um rumo subjetivo. A professora Edilene Maia, da Universidade de Taubaté, é mestre em Comunicação Social e realiza seminários de cinema para alunos da Unitau. Ela garante que os apaixonados por cinema não trocam a ótima qualidade de imagem e de som pela qualidade oferecida pelos títulos pirateados. “Quem gosta mesmo de cinema, eu tenho certeza que pode fazer o download porque o filme não chegou aqui ainda, mas na hora que tiver na sala de cinema, ele vai e assiste”, ressalta a professora. Mais um ponto para o cinema. As locadoras, por outro lado, perdem mais ainda nesse quesito. Se a espera para ver um filme nos cinemas nacionais ainda é grande, nas locadoras ela é maior ainda. Algumas táticas são utilizadas para reverter este quadro, como o investimento no fator comodidade que as locadoras oferecem. A Blockbuster, por exemplo, grande rede de locadoras americana presente no Brasil, aposta já há algum tempo no aluguel pela internet. Enquanto fecha lojas físicas, o investimento só cresce no mundo virtual. A partir de um cadastro no site é possível escolher um título dentre todo o acervo da loja e receber o filme pelo correio.

Para as pequenas locadoras de bairro, com a que Angela mantém há 23 anos em São José dos Campos, isso pode ser mais difícil, mas há também outras saídas. “Meu cliente é muito especial, então eu procuro tratar com delicadeza, com educação, com carinho. Eu acabei mantendo meus clientes como amigos, por conta também do tempo que eu estou no mercado”.

O microempresário Alessandro Martinez assumiu o controle de uma locadora há menos de um ano, e ao ser questionado sobre o futuro do mercado, já encontra dificuldades. “É difícil avaliar. As pessoas são muito distintas. Tem gente que gosta de sair de casa, olhas as caixinhas, as capas dos filmes, olhas a sinopse. É difícil avaliar o futuro”. As facilidades trazidas por conta da tecnologia, principalmente pela internet, podem indicar o caminho da extinção das videolocadoras.

Mas, se estes estabelecimentos se adequaram às diversas mudanças ao longo dos anos, como o fim da mídia VHS, a entrada dos DVDs, e mais recentemente o estabelecimento do Blu-Ray, nada impede uma adequação aos formatos digitais. É necessário tempo e paciência, tanto para a possível adaptação das locadoras, quanto para entender e acompanhar as mudanças nos hábitos de seus clientes.