A luta de uma vida que precisa viver dos achados


    por Mayara Toledo

A procura de reciclagem no dia-a-dia
Na calçada um pé de laranjeira e um portão chapado azul que esconde uma vida que luta dia a dia pelo pão do café da manha, que abriga uma família que tem a certeza de um salário mínimo e um bebê de 22 anos que precisa de cuidados e colo. Está escondido um pouco de tudo do mundo, de um lado algumas latinhas e papelões, de outro muito papel, pendurados alguns passarinhos a serem alimentos e guarda chuvas, alguns aros de bicicleta mas bicicleta alguma, dois carrinhos que são instrumentos de trabalho, luvas de proteção e bagunça pelo pouco espaço do quintal e corredor.
Ali se inicia a caminhada, na casa de Roseli Monteiro da Silva, catadora de reciclagem. Há mais de vinte anos encontrou nessa luta a forma de constituir a sua renda e de sua família, foi assim que criou e hoje tem dois filhos moços, Josiane Monteiro, 21 anos, e Anderson Monteiro, 22 anos. O tempo passa e cuidados especiais vem acompanhando a vida de Roseli, seu filho mais velho tem paralisia mental que foi descoberta nos primeiros anos de vida. Escolas caras e impossíveis, e inúmeras despesas com médico e remédios, fazem com que as saídas em busca de reciclagem diminuam. Separando somente as segundas-feiras para sua busca, sua sorte é seu marido Luiz Carlos dos Santos sai de segunda a sexta em busca de papeis, papelão, latinhas e metais, que são materiais que acabam rendendo mais a família. Incerto e corrido assim a vida que depende das reciclagens encontradas, sem contar um salário mínimo certo para manter o bebê Anderson que é preciso ser levado dentro do carrinho de reciclagem na hora da longa caminhada. Alguns auxílios e companheirismos, na trajetória do dia de Anderson e sua mãe conquistam carinho de uns que oferecem suco e copo de água para suportar calor e esconder cansaço e uma frase que não some para quem quer que seja, “Fique com Deus”- abençoa assim que passa essa mulher que carrega o peso dos reciclados e da limitação de seu filho que precisa de atenção.
          O meio ambiente agradece a colaboração da família de Roseli que vive pra isso, mas é necessário que todos sejam donos da mudança. A nova lei instituída que bane a utilização de sacolas plásticas no supermercado, com exceção de produtos a granel, entra em vigor no estado de São Paulo no dia 4 abril, onde o supermercado não precisará fornecer nenhuma alternativa. Quantos consumidores, fazendo adaptação dessa nova lei, já não levaram pra casa caixas de papelão e fizeram descarte dela? Somente em um grande hipermercado brasileiro é assustador o numero de sacolas utilizadas, chegando a 987.229 em 2012, com aumento de 10% em relação a 2009. Quantos consumidores não passaram e precisaram de sacolas e levaram pra casa que agora estão perdidas por não saberem como descartar, tirando de Roseli pelo menos o acumulado nos supermercados.
Taubaté então comparece realizando sua parte, com cooperativa que passa recolhendo reciclados, localizada no bairro Santa Tereza. A falta de investimento não faz com que seja totalmente viável, Fabiana Aparecida Costa Ramos, tesoureira da cooperativa que desaprova: “Só temos 2 caminhões e uma van”. Sendo que cada caminhão possui um motorista e dois ajudantes, e na van um motorista e um ajudante. E não é possível realizar coleta seletiva em todos os bairros, mas é um desejo de quem trabalha e vê os resultados. Somente em fevereiro deste ano foram recolhidos pelo posto 15.738 toneladas de papelão, e as pessoas se desesperam em casa por não ter espaço para ficar mantendo essas caixas. Enquanto uns querem se desfazer outros precisam achar para manter sua vida. A cooperativa conta com 22 funcionários, que realizam o processo de prensagem dos materiais, incluindo papeis, metais, plásticos, vidros, etc. Para eles conviver com os reciclados faz parte, pois muitos deles um dia viveram em lixões e dependiam de recorrer a essa forma de renda para viver, como Roseli que o faz ate hoje. O que muda para esses catadores é a certeza do salário que chega cada mês.
Roseli e Anderson pelo centro da cidade de Taubaté
Buscando conscientização já temos projeto reciclar, que teve inicio na UNITAU com professor Paulo Fortes Neto, que realiza separação do lixo e reciclado. Já houve inicio do projeto e precisou que ficasse parado por 1 ano e meio, por falta de recurso que pudesse fazer coleta. Agora tem parceria com a cooperativa no Santo Tereza que uma vez por semana passam pra recolher em departamentos que já tem um representante que orienta os funcionários da limpeza a não misturar lixos de banheiro com outros. Esse ano o Reciclar recomeça, está como um filho que precisa crescer, mas ele começa engatinhando. “Até eles verem que esse projeto não é do professor Paulo Fortes é da Universidade, mas ainda está muito ligado a pertencer ao professor Paulo Fortes. Não percebem que isso é deles, de toda instituição”, se decepciona Paulo e espera que para que esse ano cada pessoa possa se comprometer e pelo menos na Universidade conseguirmos realizar a separação devida desse lixo.
O mundo é nossa casa e dependemos dele pra viver, façamos como Roseli, salvemos o mundo, sem ele não adianta horas de trabalho sem um lugar para o lazer.