Esculpindo arte e pessoas



Texto: Guilherme Vasco
Imagens: Hélio Nunes
Áudio e edição: Mateus Fernandes


É num espaço pequeno, em uma sala com quadros de mais e paredes de menos, por trás de uma fachada insuspeita da Avenida Doutor Dino Bueno, que se aquartelam os membros de um dos grupos de resistência para disseminação da arte em Taubaté, o grupo Arte Raiz.
Com 9 anos de idade, o grupo foi formado nos corredores e salas da Escola Mestre Fêgo Camargo e tem como uma das suas principais frentes de batalha a disseminação da xilogravura.

Xilogravura é a técnica de gravura na qual se utiliza um molde de madeira como matriz para a impressão de imagens em papel, num processo semelhante ao de um carimbo. A forma de arte, de origem chinesa, se tornou famosa na Europa durante a Idade Média e teve papel fundamental na difusão da imprensa, ilustrando livros e outros documentos da época. Entretanto, esta arte milenar, que remonta a períodos ancestrais da humanidade, sofre hoje – como muitas de suas irmãs, tradições antigas – com a desvalorização e o desconhecimento.
“É uma técnica digna da sua época, exige paciência e disciplina, demorava meses para produzir um livro.”, diverte-se Daniel Alves, professor de arte e membro fundador do grupo Arte Raiz, que tem em comum com o jogador de futebol o amor por um tipo de arte. A diferença é que a arte do Daniel taubateano é praticada com as mãos.


Josué e Daniel detalham as ferramentas e os procedimentos da arte da Xilogravura




Daniel conta que o grupo Arte Raiz existe desde 2003, sendo criado quando seus membros eram ainda estudantes de arte na escola Fêgo Camargo. Os membros do grupo tinham como objetivo produzir seus trabalhos coletivamente, além de conhecer o processo de produção de arte. “O grupo foi formado por falta de um espaço para a arte na cidade. Nós percebemos que em grupo, teríamos mais espaço que individualmente”, conta Josué Amadeu, também professor e membro do grupo.
Segundo Josué e Daniel, o grupo não surgiu de maneira consciente “Fomos produzindo arte e percebemos que juntos podíamos produzir mais e com mais qualidade”, explica Daniel. “Eu não teria produzido tudo isto se trabalhasse sozinho.” Completa Josué, apontando os vários quadros que mal deixam ver a cor real das paredes, além de uma pilha de outras pinturas apoiadas num canto que não foram penduradas pela falta de espaço.
As telas na parede demonstram a diversidade do grupo, há estudos femininos, paisagens, telas abstratas e outros tipos de pinturas. “O bom de produzir em grupo é que a produção nunca para.”, conclui Daniel.
O grupo Arte Raiz é formado por sete artistas, todos também professores de arte, e atua de forma independente. Entre as vitórias que o grupo coleciona está a realização em 2011 da primeira Mostra Taubateana de Gravura, que contou com 20 artistas de 5 estados, incluindo Goiás e Rio Grande do Sul, além da exposição de peças produzidas por alunos dos integrantes do Arte Raiz.

Numa dessas ironias que só o destino é capaz de produzir, o primeiro trabalho em grupo produzido pelos integrantes do Arte Raiz, quando ainda eram estudantes da Fêgo Camargo, foi o quadro intitulado “Feto”. A obra ganhou o prêmio em uma mostra realizada em Campos do Jordão.
“Essa peça tem uma história engraçada.”, conta Josué. “Nós matamos aula da Fêgo pra fazer esse trabalho na casa do Daniel. Enquanto nós estávamos fazendo o quadro, a professora Lenita Freire apareceu na porta da casa perguntando porque não tínhamos ido pra aula e querendo nos levar pra escola.”, ri.
Os professores da Fêgo sempre apoiaram o trabalho do grupo no trabalho. “Formar as pessoas na arte da xilogravura é cultura.”, conta Josué, que então relata um dos casos que vivenciou com a arte. “Eu tinha um aluno que era considerado violento, agressivo, ia mal nos estudos. E com a formação de arte que nós fizemos com ele, hoje ele estuda arte e está se tornando um artista independente. E isso é só um dos exemplos.”, relata Josué. “Eu acredito que é necessário formar as pessoas, principalmente para questionar, formar opiniões. E a arte contribui com isso.”, explica.
Entretanto, apesar das conquistas, o grupo ainda sofre com o desconhecimento, “A gravura em Taubaté ainda precisa de mais valorização.”, desabafa Josué. “Campos do Jordão tem o maior museu de Xilogravura da América Latina, mas isso é pouco conhecido até aqui perto.” Finaliza.
O museu, inclusive, rendeu aos dois professores em 2009 o prêmio de educadores taubateanos do ano por terem conseguido fazer as gravuras produzidas pelos seus alunos serem expostas no museu jordanense. “Apesar disso, não conseguimos levar os alunos até o museu”, conta Daniel. “É meio irônico né? Eu exponho a obra do aluno lá mas não consigo levar o aluno pra ver.”, completa.


Se outrora esta forma de arte era usada utilitariamente para ilustrar livros e outros escritos, hoje a xilogravura persiste como forma artística, e tem grande espaço no nordeste, onde gravuras deste tipo ilustram as capas de literaturas de cordel.”O bom da xilogravura é que dá pra multiplicar a ideia produzindo várias gravuras a partir da matriz”, explica Daniel, contando que o grupo já se aproveitou dessa característica para fazer diversos cartazes com o nome do grupo e sair pregando pela cidade. “Depois a gente ficou sabendo que não podia, ficavam perguntando o que era esse tal de ‘Arte Raiz’”, os dois riem. A facilidade de multiplicação dessa forma de arte é apontada como uma das suas principais vantagens. “A gravura sempre foi publicitária.”, completa Daniel.
Entretanto, essa mesma facilidade de reprodução gera certo preconceito com a xilogravura, “Muitos não reconhecem a gravura como modalidade de arte.”, desabafa Josué.


Vídeo com bastidores do ateliê




O grupo agora luta para realizar seus objetivos. Além da produção e disseminação de arte, a meta do Arte Raiz é tornar o grupo um ponto de cultura, além de transformar o ateliê do grupo uma escola de Xilogravura, com isso, os membros do Arte Raiz esperam acabar com o preconceito e o desconhecimento com essa forma de arte.
A primeira turma de alunos deve ser aberta em novembro e vai aceitar alunos com qualquer nível de conhecimento na produção de gravuras e arte como um todo. O objetivo é criar um público que aprecie a gravura e outras formas de arte. “É engraçado.”, reflete Josué. “Uma forma de arte que ajudou a divulgar a Bíblia, ajudou a divulgar os livros e a imprensa durante a Idade Média, mas ela mesma não é divulgada.”, finaliza.

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Galeria de Imagens do trabalho do "Arte Raiz"