Opostos que não se atraem tanto assim

Por Patricia Zandonadi


Em tempos em que a tecnologia domina as atividades e relações entre pessoas, ainda há quem se mantenha distante desse mundo moderno. Entre as que continuam a parte deste universo tecnológico estão as idosas que por medo, receio ou simplesmente apego aos hábitos desenvolvidos ao longo dos anos nem ousam se aproximar de um computador e evitam até mesmo o aparelho celular.
“Quando quero me distrair vou pra rua passear” é o que diz Terezinha Cursino Marcondes, de 84 anos a serem completados no próximo dia 05 de junho. “Em casa meu companheiro é o rádio”, completa. Isto porque as novidades implementadas em televisores ainda complica sua vida. “São muitos botões...”, desconversa.
Tudo o que é novo provoca certo medo em qualquer pessoa. Um novo emprego, um lugar desconhecido, entre outros fatos causam ansiedade e geram receio. No caso de pessoas da terceira idade essa inovação provoca resistência. “A novidade torna-se um desafio para as novas gerações que precisam compartilhar com as gerações mais antigas, mas como não há um diálogo entre as gerações isso desmotiva os idosos” explica o prof. de filosofia e ciências sociais, da Universidade de Taubaté, José Maurício Cardoso.
Por causa dessa falta de comunicação entre jovens e idosos, estes acabam por levar a suas vidas a parte de qualquer tipo de inovação. “Esse vácuo produz grupos separados, distintos, no qual o idoso tem pouca segurança, e não só se afasta como também desqualifica ou anula os efeitos das novas tecnologias”, salienta Cardoso.
Um meio muito utilizado por pessoas da terceira idade para suprir esse vácuo deixado pela tecnologia ainda é a religião. “Acordo cedinho todos para ouvir o terço no rádio” conta dona Terezinha, que utiliza um aparelho de rádio bem simples, só para ouvir sua estação preferida, uma emissora radiofônica de cunho religioso. “Depois do terço, eu continuo ouvindo, porque gosto da programação”, afirma.
Esse apego a religião tem seus motivos conta o professor Maurício “o idoso busca a religião para se salvaguardar, pois é o mundo em que ele foi criado”. Desta forma a crença ocupa espaço privilegiado no cotidiano de quem já chegou à velhice.
“Eu adoro rezar, acordo cedo para rezar o terço, ouço a missa, tenho muita fé”, declara Terezinha que também gosta de viajar. O passaporte dela está pendurado na parede da sala de estar, onde passa a maior parte do tempo. “Cada viagem que a gente faz ganha um terço ou uma estampa, que eu mando colocar no quadro”, comenta e ainda completa “as viagens que fazemos são muito boas, visitamos igrejas em muitas cidades”.
O tempo passa, a dona Terezinha continua se sentindo feliz com sua religiosidade aflorada e a tecnologia segue se renovando. Cada uma no seu ritmo. Cada uma com suas prioridades e seus desafios. Seguem por caminhos diferentes, mas não alheios ao que o outro faz. A idosa gosta do que ouve no radinho e porque não gostaria de assistir uma missa transmitida em tempo real pelo papa Bento XVI via internet? A tecnologia se ocupa em pensar que idosos precisam de inovações para uma melhor qualidade de vida e por que não mais entretenimento sem tantos botões? E talvez os opostos se atraiam mais.