O futuro de alguém que já está no futuro.
Por Flávia Ramos
O que é o fim? Esta é a pergunta que me fiz ao final daquele dia em que a preguiça tentou me impedir de sair de casa e entrevistar Cacilda Pinto da Silva, quase 97 anos. Falar sobre a terceira idade é sempre uma tarefa complicada, pois a expectativa de fim da vida nos ronda agressivamente. Contudo, aquela conversa foi diferente.
A senhora, que lecionou por mais de 39 anos mantém uma rotina bastante incomum para a idade. Além de cuidar de sua pequena casinha de fundos, participa de muitas reuniões semanais devido ao fato de coordenar a terceira idade no coral da Paróquia São José Operário, em Taubaté, São Paulo, da qual também participa cantando. Junto a outras pessoas de mesma faixa etária, leva o coro bastante a sério.
Nascida dentro do Teatro Amazonas, em Manaus, pois seu pai era o porteiro e sua mãe cozinhava para os ingleses da borracha, foi morar em Portugal com oito anos, permanecendo lá por cinco. É uma pessoa muito ativa e detesta ficar desocupada. Tornou-se uma das primeiras mulheres vicentinas do país e realiza atividades de apoio aos pobres há muitos anos, fornecendo-lhes alimento, organizando casamentos e batizados para pessoas de baixa renda, “Orientando-as em sua moral de vida”, como ela mesma afirma.
Um fator que me chamou atenção foi o fato de, já em idade avançada ter criado três asilos e dirigido por vinte e nove anos as Casas Pias, de Taubaté. Uma de suas maiores tristezas foi o fato de o empreendimento ter falido após sua saída.
Mas, isso não a desanimou e hoje ela continua com diversos projetos. Com um livro já escrito, está começando outro. É trovadora e já ganhou diversos prêmios escrevendo e recitando poemas, além de ter textos publicados em revistas. “A gente tem que fazer aquilo que a gente gosta. Se for fazer uma arte qualquer que não goste, nem faz bem.”
Ao falar de sua vida pessoal admite que teve muito trabalho, mas muitas alegrias. “Tenho uma família maravilhosa e estão todos encaminhados.”, disse, sorrindo com os pequenos olhinhos azuis. Aliás, a coleção de tataranetos já está em dez.
Quando eu finalmente tive de questionar quais seus planos para o futuro, afinal de contas era o tema da matéria, fiquei receosa. Foi quando a pergunta sobre o fim palpitou em minha mente e tive medo de ter de falar a respeito de morte. Contudo, a resposta que me foi dada foi ainda mais surpreendente e me deixou sem palavras. Ela foi enfática: “Continuar a mesma luta de até agora, sem interrupção.”
E, por fim acabei me arrependendo por ter preguiça de sair de casa naquele dia. Porque, naquela segunda-feira aprendi que “o fim” é algo relativo e que nós o delimitamos. Naquela tarde, descobri um pouco mais sobre a vida, no simples ato de conversar com minha bisavó.
